11/01/2002 - 8:00
A bilionária guerra pelo controle do mercado de luxo acaba de fazer sua mais célebre vítima. Na segunda-feira 7, o estilista Yves Saint-Laurent convocou a imprensa para dizer que estava pendurando o dedal e a tesoura. Na despedida, o gênio da moda desabafou. Para ele, as marcas ligadas aos grandes criadores estão sucumbindo sob o peso de conglomerados gigantescos. Cada vez mais os negócios da moda, perfumes e acessórios se concentram nas mãos do francês Bernard Arnault ? dono do império Louis Vuitton Moët Hennessy que fatura US$ 24 bilhões ? e do italiano Domenico De Sole, controlador da Gucci e outras grifes que rendem US$ 17 bilhões. A aposentadoria aos 65 anos ? 48 dedicados à alta costura ? pode ser atribuída ao descontentamento com os rumos artísticos da marca que leva seu nome, comprada em 1999 pelo Grupo Gucci. No centro da polêmica, estaria o estilista Tom Ford, fiel escudeiro de De Sole.
Nos últimos anos, o texano Ford assumiu, aos poucos, o controle artístico da maison. Ao mestre restou a mera condição de coadjuvante. Saint-Laurent fez questão de negar qualquer desavença com Ford. Mas não deixou de alfinetar a falta de criatividade dos competidores mais jovens. ?Não é divertido jogar sozinho uma partida de tênis?, disse.
Saint-Laurent firmou o nome na alta costura como um dos mais criativos e ousados artistas de todos os tempos. O vestido trapézio, o smoking feminino, as transparências e a moda safári ganharam as passarelas internacionais e renderam polêmicas por várias gerações. Ele desafiou modismos e mostrou ao mundo que a produção de roupas em série não era páreo para suas peças exclusivas e dotadas de generosas doses de criatividade. Mas esbarrou na verdadeira corrida do ouro em que se transformou o mundo da moda. Ao se digladiarem para empilhar grifes em seus portfólios, a LVMH e a Gucci sepultaram o tempo romântico da moda.
Saint-Laurent debutou no universo da alta costura aos 17 anos pelas mãos de Christian Dior. Nascido na Argélia, foi para Paris estudar moda e acabou descoberto pelo mestre dos mestres. Pouco tempo depois, Laurent partiu para carreira solo, não sem antes ocupar o lugar mais alto na Dior, após a morte de seu mentor, em 1957. Os 40 anos de trabalho de Laurent e seu parceiro Pierre Bergé vão ser mostrados, no dia 22, em Paris. Essa será a última chance de ver em ação modelos longilíneas exibindo criações que contam a trajetória do mito da alta costura.